Primeiro elo: o reposicionamento
Quando Jesus disse que o Filho do Homem precisava ser levantado, ele falava da própria morte — e sabia como essas palavras soariam aos seus ouvintes. Por isso, como observou João Crisóstomo no século IV, Jesus imediatamente reposicionou a questão: aquele que seria entregue à morte é o Filho de Deus, e essa morte se tornaria a fonte da vida eterna.
Crisóstomo se demorou na expressão amou o mundo de tal maneira
porque ela mede uma
distância imensurável: Aquele que não tem começo nem fim, infinito em grandeza, amando pessoas
feitas de pó e cinza, carregadas de pecados incontáveis. O presente corresponde ao amor — não
um servo, não um anjo, mas o Filho. Na formulação que a catena preserva, Deus não deu um
servo, nem um Anjo, nem um Arcanjo, mas o seu Filho
. Para Crisóstomo, este é o motor do
versículo: o amor de Deus não é um sentimento passageiro, mas um ato — e o ato é a entrega do
que era mais precioso por pessoas que eram, nas palavras dele, servos ingratos e
negligentes
.
Segundo elo: a lógica do presente
Hilário aplica a mesma lógica do lado de quem dá: devem ser preciosas as coisas que
provam o nosso amor; coisas grandes devem evidenciar a sua grandeza
. Um amor infinito só
se prova com um presente à sua medida.
Teofilato acrescenta o horizonte: o Antigo Testamento prometia ao Israel obediente
longura de dias
; o Evangelho promete vida eterna e imperecível
.
Terceiro elo: o médico
Na trama de vozes da Catena Aurea sobre João 3:16-18, Agostinho entra pelas bordas do
versículo famoso, não pelo centro. Pouco antes dele, comparando Cristo à serpente de bronze
que Jesus havia recordado, Agostinho pesa a figura e a realidade
e localiza a diferença
naquilo de que cada resgate salvou — um da morte temporal, o outro da eterna
. Sobre o
versículo 17, pergunta por que Cristo é chamado o Salvador do mundo senão porque ele salva
o mundo
, e responde com um médico: o médico, no que depende da sua vontade, cura o
doente
; se o doente ignora as suas orientações, destrói a si mesmo
. A condenação,
nesse quadro, não é algo que Cristo traz; é aquilo que o paciente retém.
Quarto elo: o tempo do verbo
Sobre o versículo 18, Agostinho ouve o tempo do verbo. Que esperavas que ele dissesse de
quem não creu, senão que está condenado
? Mas o texto diz mais: já condenado. O Juízo
ainda não apareceu, mas já foi dado
. Na leitura de Agostinho, a incredulidade não espera
um veredito; é o veredito que a pessoa pronuncia sobre si mesma.
A corrente inteira gira em torno de três palavras — o amor, o presente, o resgate. O exame do versículo em quatro traduções está em João 3:16; a primeira metade da frase, em o amor de Deus.